Danças Negras​

 

A ideia de realizar um documentário que reflete sobre importantes aspectos das artes negras no processo de emancipação e descolonização sócio-cultural no Brasil, surgiu para João Nascimento há cerca de seis anos, quando protagonizou ao lado do Fórum de Artes Negras e Periféricas a memorável luta anti-racista e democrática em torno do programa de Fomento à Dança na cidade de São Paulo. Somatizando à experiência junto a Cia de Dança Negra Treme Terra o qual o João Nascimento é diretor-fundador desde 2006, o filme costura uma trama pavimentada no olhar artístico contemplativo com forte viés político, antropológico e cultural.

 Além de figuras ilustres oriundas do campo das artes do corpo, da capoeira, dos terreiros de candomblé, do movimento negro e ambiente acadêmico, vale ressaltar que o filme conta com entrevistas exclusivas de Raquel Trindade (falecida em abril de 2018) e Makota Valdina (falecida em março de 2019). Segundo o diretor João Nascimento, "Danças Negras trilha caminhos poéticos fundamentados na ancestralidade, nas memórias marcadas em corpos que dançam histórias, movimentações estéticas, políticas e sonoras oriundas das diásporas africanas no Brasil e outros desdobramentos urbanos marcados pela transculturalidade".

 

Registrar em formato de documentário as matrizes negras da diáspora africana na dança contemporânea brasileira é resistir ao soterramento e ao embranquecimento das nossas identidades e tradições, estratégia criada pelos colonizadores desde o período escravocrata, quando os negros e negras antes de passar pela "porta do não retorno", eram submetidas ao "ritual de esquecimento em volta do Baobá" no Benin, com o propósito de apagar nossas histórias, culturas, origens e nossa ancestralidade, afirmam os diretores.

Em seu depoimento ao documentário, o antropólogo Kabengele Munanga diz que “o racismo é uma ideologia que consiste em inferiorizar os outros, negar a humanidade dos descendentes de africanos, a sua capacidade de produzir obras de arte e culturas que marcaram a história da ciência e da tecnologia. Todo esse processo de hierarquização faz parte do fenômeno chamado racismo, que permeia todas as áreas. As artes africanas foram consideradas inferiores, primitivas, infantilizadas mesmo, e foi preciso um tempo para se dar conta que a arte negra tem expressões e raízes profundas que vêm da cultura de um povo, porque arte não cai do céu”.

 

Além de Kabengele Munanga, Raquel Trindade e Makota Valdina, Danças Negras tem depoimentos exclusivos de Clyde Morgan, Edileusa Santos, Lia Robatto, Enoque Santos, Helena Katz, Dinho Nascimento, Salloma Salomão, Mestre Felipe, Fernando Ferraz, Mestre Lumumba, Carlos Moore e do coreógrafo Firmino Pitanga que também assina a direção do filme.

 

 

:: SOBRE OS DIRETORES ::

JOÃO NASCIMENTO

Artista, pesquisador de cultura negra em diáspora e diretor das artes dos corpos dançantes e sonoros. Cineasta documentarista, realizou a direção, roteiro e trilha sonora do filme “Danças Negras” produzido pela Kalakuta Produções, coordenador do Ponto de Cultura Afrobase e diretor-fundador da Cia de Dança Negra Treme Terra atuando como diretor geral nos espetáculos “Cultura de Resistência”; “Terreiro Urbano”; “Pele Negra, Máscaras Brancas” e “Anonimato - Orikís aos Mitos Pessoais Desaparecidos”. Graduado em produção musical na Universidade Anhembi Morumbi, Integrante da Frente 03 de Fevereiro e co-criador do Filme Zumbi Somos Nós. Atualmente realiza a direção dos filmes “Tambores da Diáspora” e "Hip-Hop Caboclo".

FIRMINO PITANGA

Coreógrafo, licenciado em Dança pela Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Durante mais de 30 anos realiza estudos sobre a dança negra na África e no Brasil, tornando-se um dos precursores da dança negra contemporânea em São Paulo. Integrou o grupo de dança contemporânea da UFBA, sob direção de Clyde Morgan, apresentando-se no II FESTAC - Festival Mundial de Artes e Cultura Negro Africana, realizado em 1977 em Lagos, Nigéria. Nesta mesma época dirigiu o programa Axé Se Liga Brasil, da TV Band. Fundou o Grupo Bata-Kotô e a Companhia Balé de Arte Negra, da Umes. Em 2005 e 2006 tornou-se professor da UFBA – no Departamento de Técnicas Corporais, atuando como docente no estudo do corpo com ênfase em cultura afro-brasileira. Desde 2010 é diretor da Cia Treme Terra, coreografando os espetáculos Terreiro Urbano; Pele Negra, Máscaras Brancas e Anonimato - Orikís Aos Mitos Pessoais Desaparecidos. Realizou a direção do documentário "Danças Negras".

 

 

DANÇAS NEGRAS

Brasil, 2020, 72 min, cor, 12 anos

Direção: João Nascimento e Firmino Pitanga

Montagem e Edição: Denison Luz

Roteiro e Trilha Sonora: João Nascimento

Produção Executiva: Fernanda Rodrigues

Produtora: Kalakuta Produções

Distribuição: Lira Filmes

Codistribuição: Spcine e Secretaria Municipal de Cultura

 

Entrevistados: Clyde Morgan, Makota Valdina, Edileusa Santos, Raquel Trindade, Lia Robatto, Enoque Santos, Kabengele Munanga, Helena Katz, Dinho Nascimento, Salloma Salomão, Mestre Felipe, Fernando Ferraz, Firmino Pitanga, Mestre Lumumba e Carlos Moore.

 

DANÇAS NEGRAS propõe um debate sobre a presença da cultura negra na contemporaneidade, bem como, os diversos paradoxos encontrados no ambiente de uma sociedade marcada por uma tradição racista e escravocrata.

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